HISTÓRIA DE LUTA E SUPERAÇÃO - DOMINGOS DA SILVA LIMA - PORTO FRANCO/MA

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HISTÓRIA DE LUTA E SUPERAÇÃO - DOMINGOS DA SILVA LIMA - PORTO FRANCO/MA

Mensagem  Domingos da Silva Lima em Sab Jun 09, 2012 4:33 pm

Olá amigos, aqui conta a minha história de muita luta e perseverança e sempre enfrentando muitas dificuldades (já até passei fome).
Sou filho de família pobre e humilde. Meu pai sempre trabalhou na roça, nunca aprendeu a ler nem a escrever e minha mãe estudou só até a 4ª série do primário.
Quando eu era criança, morávamos quase sempre na zona rural, em lugar de difícil acesso à educação, e quando tinha uma escola, ficava longe. Comecei a freqüentar uma escola com sete anos de idade, tinha que sair cedinho, eu e meu irmão, que tinha seis anos.
Às vezes não tínhamos nada para comer de manhã, então minha mãe colocava uma gordura (óleo) para esquentar e jogava cebola picada dentro, e quando a cebola já estava frita, colocava farinha dentro. Essa cebola frita com farinha nós não comíamos antes de sair não, pois era pouca a farinha. Nós deixávamos para comer quando estava voltando da escola, já meio dia, com fome e longe de casa. Na estrada tinha um rio, que sobre o qual passávamos por cima de um pé de buriti caído, era lá que comíamos aquela farofa, com tanta fome que parecia que tinha carne, mas era só cebola com farinha. Outras vezes comíamos café puro com farinha, era um pirão difícil de se engolir, mas era o jeito. Também comíamos gongo assado no espeto (aquelas brocas brancas que tem dentro do coco babaçu), pois carne era uma raridade para nós. A água que bebíamos era quase sempre quente, principalmente nos períodos em que a temperatura era elevada, já que a água era de pote, que às vezes nem era inteiro, era um caco de pote, pois quando quebrava nem sempre tínhamos dinheiro para comprar outro.
Quando era tempo de chuvas, o rio ficava cheio e a gente ficava sem ir à escola, sem contar que quando conseguíamos, tínhamos que vir embora na chuva, há uma distância de 5km de casa, sozinhos, no meio do mato.
Na escola os alunos do Pré à 4ª série estudavam todos numa mesma sala, e era apenas uma única professora para ensinar a todos. Ela só me botava pra ler o ABC, o ano inteiro, e no ano seguinte, do mesmo jeito.
Aos nove anos de idade minha mãe me levou para morar em casa de família rica, na cidade de Porto Franco/MA, mas tive que iniciar meus estudos do zero, ou seja, do ABC novamente e no ano seguinte (na cartilha), aprendi a ler e a escrever. Na casa da tal família rica sofri mais do que na casa de meus pais, pois lá, mesmo sendo criança, eu tinha que trabalhar muito, às vezes até doente. Além do mais, só comia aquela mesma quantidade todo dia, se não desse para encher a barriga, ficava por isso mesmo, e não comia junto com as outras pessoas da casa, era sozinho, na área da lavanderia. Eu comia sempre numa bacia de alumínio, era a dona da casa quem colocava a minha comida e às vezes ela mandava a empregada colocar, mas nunca eu comi a mesma comida que os outros, pois da comida melhor só quem comia eram os donos da casa, mesmo que fosse dia de festa (aniversário, por exemplo). A comida que davam para o cachorro era melhor do que a que eu comia.
Depois minha mãe foi morar na mesma cidade onde eu estava, foi quando eu fugi daquela casa e fui morar com meus pais. Naquela época eu já cursava a 1ª série do primário, à tarde, e pela manhã, comecei a vender, pelas ruas e principalmente na Rodoviária da cidade: geladim, coxinha, picolé e até engraxar sapatos das pessoas, pois tinha que ajudar meus pais nas despesas de casa, tudo isso com 10 anos de idade.
Como meu pai sempre vivia mudando de lugar, logo em seguida fomos morar na zona rural do município de São João do Paraíso/MA. Eu já cursava a 2ª série e estava em férias (mês de julho), mas tive de abandonar o colégio, e como naquele meio de mato não tinha escola perto, eu perdi dois anos de aula, atrasando consideravelmente meus estudos.
Depois de um certo tempo, fomos morar em outro local, mas ainda na zona rural, só que pelo menos tinha escola. Comecei a estudar novamente a 2ª série.
Quando já estava na 3ª série (julho de 1994), e com 14 anos de idade (atrasadíssimo!), eu e milha família nos mudamos para a cidade de São João do Paraíso/MA. Não tínhamos quase nada, toda a nossa mudança coube dentro de um jipe sem aquela carroceria de madeira, imaginem só! As poucas roupas que tínhamos eram guardadas em caixa de papelão, não tinha fogão a gás, geladeira, sofá, nada, e cadeiras, tinham apenas duas (os chamados tamburetes, de couro e madeira).
Naquele tempo o meu pai já vivia doente, já não dava mais conta de trabalhar no pesado para nos sustentar. Eu era o filho mais velho, embora tivesse só 14 anos, e ainda tinha minha mãe e minhas duas irmãs de 03 e 04 anos de idade, assim nessa ordem. Minha mãe não sabia fazer outra coisa a não ser cuidar da própria casa e dos filhos. Eu pensei, e agora, como vamos comer? Sim, porque numa situação daquela todo o resto ficava em segundo plano (roupas, calçados, lazer, que quase não tínhamos mesmo), pois queríamos pelo menos comer, mesmo que fosse só arroz com ovo. Não deu outra: tive que enfrentar a vida só com a cara e a coragem, não tinha outro apelo, pois tinha de sustentar eu e mais quatro pessoas (meus pais e minhas duas irmãs menores), e olha que eu só tinha quatorze anos.
Naquele momento da minha vida começava meu grande dilema: trabalhar sem ter que parar de estudar. A pressão era grande. E como eu , com apenas 14 anos de idade, conseguiria sustentar tanta gente, se antes, com o meu pai trabalhando, que era adulto, já nos faltavam alimentos? E como conciliar os estudos com o trabalho se eu estudava à tarde (3ª série)? O serviço que eu poderia encontrar seria trabalhar em fazendas como peão, roçando juquira, trabalhando de roça, de foice, machado e enxada. As pessoas que me dessem serviço não o fariam para eu trabalhar só meio período (só pela manhã), teria que ser o dia todo. Conversei então com a minha professora e expus a ela a minha situação, e falei que só poderia estudar uma semana sim e outra não, ou seja, numa semana eu estudava e na outra eu trabalhava. Ainda bem que ela aceitou e assim eu fiz, no 2º semestre da 3ª série e no ano seguinte, durante toda a 4ª série.
Foram tempos difíceis para mim. Na semana em que eu estava trabalhando, tinha que ir à casa dos colegas pedir o caderno emprestado, e à noite, já em casa, tinha que copiar tudo o que se passava nas aulas, mas mesmo assim nunca reprovei nenhum ano. Às vezes eu levava o caderno com a matéria da prova para roça, e depois do almoço eu estudava um pouco. Mas a dificuldade não parava por aí. Nem sempre tinha serviço perto da cidade, então tinha que sair de fazenda em fazenda procurando serviço e quando encontrava, era longe de casa, tendo que levar roupas e a rede, pois tinha que ficar a semana inteira lá e vir embora só no final da semana. Mas com tudo isso ainda ficava feliz da vida, triste era quando não encontrava serviço e ter que dormir com fome e sem saber se ia comer no dia seguinte, e ver as irmãs pequenas chorando de fome. Naqueles tempos ruins às vezes ou quase sempre o que tínhamos para o almoço era apenas arroz puro, sem nenhuma mistura. Sabe o que eu fazia para engolir aquele arroz seco? Pegava um copo com água (mesmo natural), colocava sal dentro e mexia com uma colher e depois colocava aquilo dentro do prato de arroz, fazia de conta que era o caldo. A fome fazia eu comer, mas ficava meio fraco, pois a comida não ajudava.
Quando iniciei a 5ª série à noite, já no 2º semestre (em agosto de 1996), quase abandonei os estudos, pra falar a verdade parei de estudar por duas semanas e estava decidido que não estudaria mais. O motivo era que eu peguei uma empreitada longe de casa, era um broque e derrubada de roça, primeiro com a foice e depois tinha de derrubar as árvores mais grossas com o machado, deixando a roça pronta para queimar. Além de ser um serviço que requeria muito esforço físico, tinha de viajar bastante de bicicleta de volta para casa. Chegava na cidade já quase de noite, encontrava os colegas já indo para a escola e eu ainda todo sujo, suado, com fome e cansado, e às vezes não tinha o que comer na janta.
O bom é que sempre tem pessoas que veem a nossa luta e nos dão conselhos na hora certa. Foi então que um amigo chamado Roberto, pessoa que tinha mais de cinqüenta anos, pediu-me pra voltar a estudar, pois se minha vida estava sendo difícil, pior ficaria sem os estudos, e além do mais eu era um exemplo pra todo mundo, não reprovei em nenhuma série, nunca tirei notas baixas, eram quase todas 10, sendo que quando estudava a 4ª série, passei de ano ainda em setembro, pois já no 3º bimestre eu havia atingido 30 (trinta) pontos em quase todas as matérias, e a professora me liberou o restante do para eu poder trabalhar, já que naquela época eu estudava numa semana e trabalha na outra. Mas, como eu havia falado, ao ouvir os conselhos do amigo Roberto, resolvi voltar para a escola, depois de duas semanas ausente, e olha que quem me aconselhou nunca estudou na vida, mas entendia que eu não podia parar.
Quando estava trabalhando nem sempre dava para almoçar em casa, devido à fazenda às vezes ser longe de casa, então eu tinha que comer comida fria no serviço (ou bóia fria, como preferir). Para tanto, eu preparava a minha comida quatro horas da manhã, eu mesmo, pois minha mãe estava cansada e não queria incomodá-la. O cardápio era sempre a mesma coisa: arroz misturado com feijão (não era feijão de caldo não!) e ovo de granja frito. Às vezes estava chovendo quando eu fazia aquela comida e quando faltavam vinte minutos para as seis da manhã, mesmo chovendo, eu tinha que ir para o serviço, de bicicleta. Quando eu saía a minha família ainda estava deitada. O duro era na hora do almoço, ficava com vergonha ao abrir a minha marmita no meio dos outros peões, já que nas vasilhas deles tinha carne, macarrão, e às vezes até salada, e na minha só tinha arroz com ovo de granja frito, frio, feito às quatro da manhã para eu comer às 12 horas. Alguns se comoviam e me davam um pedaço de carne, mas outras vezes não, tinha que comer o que eu tinha mesmo.
Fiquei naquele sofrimento até o ano de 1999, quando cursava a 8ª série à noite, numa escola municipal. Como eu era um aluno muito esforçado e sempre tive facilidade de aprender sozinho, em agosto daquele ano comecei a dar aulas de matemática de 5ª a 8ª série numa escola do Estado, à tarde. As coisas começaram a melhorar.
No ano seguinte (2.000) fiz o 1º ano do ensino médio, mas ao final do ano veio uma norma, que quem estivesse com a idade acima de dezenove anos, e ainda cursando o ensino médio, teria que estudar em telessala (supletivo, televisionado) e eu já tinha 21 anos. Dessa forma terminei o 2º grau em 2002.
Hoje moro em Porto Franco/MA, cidade de vinte e poucos mil habitantes, não tem cursinho e nem faculdade presencial, só uma na modalidade à distância, mas não tem curso de direito, que é o que pretendo fazer. Casei-me e dei uma parada nos estudos, mas sempre trabalhando muito, pois sou titular agora de dois cargos públicos efetivos. Estava com o meu tempo totalmente comprometido com o trabalho, sendo que durante o dia eu trabalhava na Promotoria de Justiça até duas ou três horas da tarde e quando chegava em casa, ia cuidar de canteiros de verduras, as quais eu vendia na feira aos domingos. À noite trabalhava no SAMU 192, de sete da noite a sete da manhã, e quando não tinha plantão à noite, ficava no quintal até 1h da manhã preparando adubo de gado (já curtido, molhado, mas precisava esmagá-lo para depois colocar nos canteiros, quando não tinha que molhar a horta inteira com uma mangueira).
Decidi que era hora de ir mais longe, foi então que resolvi estudar para o concurso do TRE/MA em 2009 e tive que abandonar os canteiros, mas fiquei trabalhando na Promotoria de Justiça e no SAMU, mas mesmo assim me sobra pouco tempo para estudar e aproveito bem este tempo.
Quando comecei nesta última empreitada, tinha que pedir ajuda financeira às pessoas para eu poder ir fazer as provas, pois eu ganhava pouco e as passagens eram caras, mas hoje graças a Deus eu já consigo fazer isso às minhas Expensas.
Em 2010 fiz TRE/PE, errando ao todo cinco questões. No mesmo ano passei no em 2º lugar no concurso do IFMA (antigo CEFET) aqui no Maranhão, concorrendo com 1.400 candidatos disputando 3 vagas para a cidade de Bacabal. Em 2011 foi a vez do TRE/PA e TRE/TO, conseguindo a 139ª e 21ª posições, respectivamente.
E para fechar com chave de ouro, estou na 19ª posição no TRE/PE, aguardando a próxima vaga. Graças a Deus serei o próximo a ser nomeado para o cargo de Técnico Judiciário daquele Tribunal e já estou começando a estudar para o vestibular. Quero prestá-lo em janeiro do ano que vem, para o curso de Direito.
Quando tiver terminando o meu curso, vou fazer concurso para Analista Judiciário – Área Judiciária e depois que estiver a três anos trabalhando em tal cargo, disputarei o de Promotor de Justiça. Quero ver aonde o conhecimento irá me levar!


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Re: HISTÓRIA DE LUTA E SUPERAÇÃO - DOMINGOS DA SILVA LIMA - PORTO FRANCO/MA

Mensagem  red1000 em Sab Set 10, 2016 7:21 am

Galera, o fórum atualmente encontra-se sem moderação. Como não estou dando conta das correções, estou migrando pra outra página de correção!!
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Re: HISTÓRIA DE LUTA E SUPERAÇÃO - DOMINGOS DA SILVA LIMA - PORTO FRANCO/MA

Mensagem  red1000 em Dom Set 11, 2016 12:13 pm

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